domingo, 26 de setembro de 2010

Izadora decide morrer

Izadora precisa de algo mais. Ela se pergunta: o quê? Dissimula uma resposta. Olha pro vazio. Observa um copo d'água - os peixes se movem no aquário - e tudo, tudo, é sofística. Quero acompanhar-lhe. É escorregadia. Quando penso alcançar-lhe, ela se desapresenta. Se me removo, ela se encaixa. Se me coloco, ela me escapa. Eu exclamo o amor! Ela reclama do tédio - Embora aos meus olhos sua vida pareça bastante movimentada. - Discursa sobre as pessoas, vazias, e os lugares, fúteis. Nada a satisfaz. Como oferta-lhe prazer? Como servir-lhe o essencial? No canto da sala estão filmes, guimbas de cigarro e pó sob as fotos de um passado recente.

Comentou comigo há pouco o desejo de uma viagem. Quer comer carne de saci*. Diz que quer encontrar ETs (?!). Diz que pretende buscar o desconhecido e que não sabe como denominar a sensação que almeja. É mais fácil então chamar de extra-terrena. Certa vez, foi a rodoviária e comprou uma passagem para um lugar desconhecido. Dessa vez, era diferente. A rodoviária não supriria essa tal necessidade de novidade. Queria algo mais. Pra além do já executado.
Sentou-se na parte superior do beliche. Movimentava os pés no vento. Lembrou dos arquitetos e do vento. Vestiu um novo personagem e foi ao brechó. Sabia que o que deseja não estava pra além de si mesma. Não precisava de muito pra externar o óbvio. 

*Comer carne de saci: expressão não cunhada por mim, mas que eu utilizo com voracidade oferecendo-lhe significado diferente do proposto por seu autor, que meramente fez uma troca da palavra siri por saci. Pra mim, significa devorar a cultura nacional. Ultrapassando as proposições do inspirado pelo Manifesto Antropófago, do qual fazia parte Oswald de Andrade.
Quer dizer, é transpor os limites do proposto pelo que se apresenta como real. Algo entre a necessidade de utopia e o desespero pela busca da ideação. É saborear a cultura como transposição de barreiras limítrofes pelo que se interpõe como tradição e costumes.

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