Maria medo de amar às portas da vida
- Meu nome é Maria. Não sei como se faz psicoterapia.
- Diga o que está sentindo agora.
- Meu único problema, doutor, é o medo.
- Nós só temos um problema real: o medo.
- Eu tenho medo de amar.
- As outras formas de medo são mecanismos de defesa e sobrevivência animal. A pessoa humana tem um medo especial e original: o de amar.
- E amar é a única coisa que me interessa.
- É o amor e não a vida o oposto da morte. Precisamos distinguir entre estar vivo e morrer.
- Claro, não estou viva porque tenho medo de amar.
- Você não está morta porque o amor é a única coisa que realmente lhe interessa.
- Precisamente por isso decidi fazer psicoterapia.
- Precisamente por isso, estou certo hoje, decidi ser psicoterapeuta.
- Então os psicoterapeutas entendem de amor?
- Não. Os psicoterapeutas entendem deamor tanto quanto qualquer pessoa. Eu tenho medo de amar como você.
- Como pretende me ajudar?
- Tenho muitos mais anos de medo do amor do que você. Acho que aprendi alguma coisa enfrentando esse medo.
- E já amou?
- Muito.
- Como?
- Como estou tentando e temendo amar você agora.
- Eu não vim aqui para amá-lo e ser amada pelo senhor.
- Então perde o seu tempo aqui. Quando você chegou, a primeira coisa que fiz foi perguntar-me se queria e podia amar você. Logo senti que sim. Então comecei a sentir medo. E isso provava que já estava amando.
- Estou começando a sentir medo do senhor.
- Como é esse medo?
- É difícil explicar.
- Não se explique. Descreva apenas o que está sentindo. Esqueça a palavra medo e descreva as sensações e emoções que sente agora.
- Como o senhor falou que me ama de certa forma eu me sinto vulnerável, em risco. Como se tivesse que me defender do senhor. Como se de repente fosse me atacar. Sabe, estou quase chorando.
- E suas mãos estão tremendo.
- O coração bate forte. A cabeça está tonta. Tenho o corpo todo contraído. Quero ir-me embora daqui.
- Fugir de medo. Por que não vai?
- Não consigo me mover!
- Por que então não chora?
- Não quero, não quero!
- Agora você está de olhos fechados e abraçou os peitos com os braços.
- Pare de falar, por favor!
- Eu gosto!
- Isso. Deixe o choro vir todo. Assim, relaxando o corpo. Grite, se quiser. Mais alto, mais alto!
- Eu quero... eu ... eu gosto... eu...eu quero... quero... quero... Eu gosto do senhor... eu quero gostar de você.
- Você não está tremendo mais.
- O que foi que aconteceu?
- Você chorou o que tinha pra chorar. Está se sentindo melhor agora?
- Não sei, não consigo olhar para o senhor.
- Você tem o rosto tranqüilo. Ainda sente medo?
- Não, sinto vergonha.
- Entendo. Você agora me parece uma pessoa mais agradável de se ver. Talvez tenha vergonha disso.
- Chorar é uma coisa feia.
- Conter o choro é que nos torna feios. Chorar é uma função biológica. Precisa ser satisfeita. Uma pessoa esfomeada é uma coisa muito feia de se ver.
- Queria poder olhar de frente para o senhor.
- Eu estou me sentindo muito bem, depois que você chorou. Eu também estou aliviado e com muito menos medo de gostar de você.
- Por quê? Só por que chorei?
- Não é pouco o que você fez. Eu sei como é difícil poder chorar e rir sem medo, sem vergonha.
- E o que acontece quando se perde o medo e a vergonha de chorar e de rir?
- Talvez no fim do choro e do riso todo da gente esteja o começo da nossa capacidade de amar.
- Acho bonito isso que o senhor disse e estou com vontade de olhá-lo de frente. Mas, me responda uma coisa: o senhor chora na frente dos outros?
- Sabe, eu chorei agora, quando disse que no fim do riso e do choro todo da gente talvez esteja o começo da nossa capacidade de amar.
- O senhor não usava óculos?
- Sim. Tirei-os para que você pudesse ver melhor meus olhos.
- Parece que estou vendo agora o senhor pela primeira vez. Parece uma pessoa completamente diferente.
- De certa forma isso é verdade. Perdi, agora, com você, mais um pouco do meu medo de amar.
- Mas como é o seu amor?
- Com cada pessoa ele é diferente. Só a energia é a mesma. Acho que não existe um amor genérico. Posso lhe dizer como é agora o meu amor por você.
- Acho que vou sentir vergonha e medo de novo.
- Porque, certamente, você confunde o sentimento com a posse. Talvez você sinta que devemos possuir as coisas e as pessoas que amamos.
- Sim, é isso. E como, então, podemos satisfazer nosso amor?
- Só existe uma forma de amor que implica na posse provisória dos corpos das pessoas: quando o amor pede sexo para se completar. E, assim mesmo, não chega a ser posse a relação sexual. Depois do orgasmo, os corpos necessitam estar separados um do outro. Eu sinto que é sempre mais prazeroso e mais bonito o amor em mim quando me sinto menos possuidor das pessoas que amo e quando essas pessoas se sentem menos possuídas por mim. No sexo e nas outras formas de amor também.
- Mas o sexo é importante.
- Para quem está insatisfeito sexualmente. Você, agora, tem vontade de chorar?
- Não. E não sinto medo nem vergonha. Pode dizer como é o seu amor por mim.
- Eu não sinto atração sexual por você. Eu não sinto pena de você. Eu me senti e ainda estou me sentindo muito bem ao seu lado. E quero conhecer o que está do outro lado da porta...
- Da porta?
- Do seu medo de amar. Parece-me que o seu medo é o de possuir e o de ser possuída. Enfim, alguma coisa muito forte dentro de você impedindo que possa tomar alguém objeto ou ser objeto de alguém. E, sabe, eu acho isso muito bom, uma coisa muito saudável. Talvez a intuição da existência disso em você é que me tenha levado a sentir logo que gostava de você.
- E o que seria essa coisa?
- Você vai descobrir. Eu sei como ela é em mim. Veja: vivendo numa sociedade regulada pela posse – das coisas e das pessoas que se transformam em bens de consumo e de status, que se transformam em instrumentos de poder – os que não se conformam em possuir e em serem possuídos só podem mesmo viver amedrontados e envergonhados. Se for assim com você também, garanto que não será fácil resolver seu problema só com psicoterapia.
- Mas tem solução?
- Amar livremente o nosso amor não-apropriador de pessoas e coisas é uma forma muito perigosa de viver.
- E quem temer esse perigo?
- Será apropriado por alguém ou por instituições que esses alguéns controlam. E não vive, quer dizer, entrega sua energia vital para eles.
- E como funcionam essas apropriações?
- Quando nos inoculam, desde cedo e permanentemente, o medo e a vergonha de sermos nós mesmos, de vivermos ampla e livremente o nosso amor não-apropriativo.
-Sabe, doutor, eu sou casada e tenho dois filhos. Estou sentindo uma coisa muito forte e muito bonita agora. Estou sentindo muito amor pelo meu filho mais velho. Ele nos tem criado muitos problemas. Saiu de casa, largou os estudos. Sabe o que estou sentindo, doutor? Ele se parece muito com a gente.
- A gente?
- Sim. Comigo e com o senhor.
[Roberto Freire – Texto publicado no jornal Aqui São Paulo em 25/03/76 e republicado na coletânea – Viva eu, viva tu, viva o rabo do tatu!]
Pra quem carrega em si o medo de amar, aquele medo que paralisa à entrega ou que simplesmente leva a uma força/ação de entrega desesperada, eu pergunto : E você, quer uma novela pra viver?
Pra quem prefere a novela eu deixo um recado em forma de canção:
Eu tinha um amor, deixei ele ir com a novela. Pq se eu não o deixasse ir, eu não seria eu. Não sei se me faço entender e às vezes é melhor que não se faça mesmo. O amor está em mim, não na posse. Hoje, tenho em mim o amor e a solidão. Amo porque vivo atenta a satisfação das minhas reais necessidades como pessoa, não como entidade social despersonalizada que deve realizar possibilidades ideais. Vivo a solidão porque já não fujo de nada, nem de ninguém (nem de mim mesma), apenas me procuro, e me encontro. É uma solidão que eu construo, no prazer e na satisfação de perceber-me singular. Hoje, estou no mundo por puro prazer (talvez antes eu estivesse no mundo só por medo). Vivo no meu jeito de viver. Já não há porque temer porque não há certo ou errado. Quem disse que eu tenho que... eu não tenho que nada! Comportamentos devem ser realizados com objetivos de alcance de prazer e satisfação, se não há prazer na realização.. então, não há necessidade! A força/ação é que o enigma. Não há que se realizar nada que seja contrário a real/ação, que é àquela realização prazerosa, a pletóra.
Os músculos descontraem... a tarefa já não existe porque a realização é trajeto. Se ele (o sujeito amado) preferiu a televisão quem sou eu para criticá-lo? Cada um sabe como sente prazer! Eu sei. E vc, sabe?